O Rio Paranapanema

 

Poucos rios, surgem de grandes nascentes, mas muitos crescem recolhendo filetes de água.

O Rio Paranapanema é um dos rios mais importantes do interior do estado de São Paulo. Ele é um divisor natural dos territórios dos Estados de São Paulo e Paraná.

Ele é tão importante que tem o seu próprio dia, criado pela Lei Estadual 10.488/99 (Antônio Salim Curiati), (sancionada pelo Governador Mário Covas), designado 27 de agosto. 

No idioma e na cultura tupi-guarani, o vocábulo paranapanema etimologicamente (parana + panema) significa "grande rio improdutivo", pois o Paranapanema era considerado pelos autóctones (indígenas), um rio com poucos peixes. Contudo, revelou-se produtivo na geração de energia elétrica: concentra 5% da produção hidrelétrica nacional.

 

 

“O percurso de 930 km, que começa em São Paulo (Ribeirão Grande) e vai até o Paraná, guarda histórias surpreendentes e cativantes. Ao caminhar pelas terras próximas às nascentes do rio Paranapanema, encontra-se um mundo que quase não existe mais: a floresta úmida e densa, com toneladas de matéria orgânica cobrindo o chão, vestígios recentes da passagem de monos-carvoeiros, lontras, antas e cachorros-do-mato. Estamos em meio à mata atlântica, no alto da serra do Paranapiacaba, sudeste de São Paulo, onde é preciso andar muito para visitar os olhos d'água que dão origem ao mais limpo dos grandes rios paulistas. "Paulista" de nascimento, mas que, na extensão de seu curso, passa a dividir os estados de São Paulo e Paraná.

Fomos apresentados ao local no meio da madrugada de um sábado frio, quando nossa equipe acordou para buscar as tais nascentes. Após quatro horas de jipe, em viagem lenta, atrapalhada por árvores tombadas no caminho e atoleiros gigantescos, iniciamos nossa caminhada. Foram 12 horas de marcha quase ininterrupta, sob chuva, sem descanso. O Paranapanema nasce no interior da fazenda Guapiara, de 2.884 hectares, propriedade da Orsa Celulose Papel e Embalagens. É um local fechado, com mais da metade de sua área coberta por vegetação nativa, visitada apenas por mateiros, caçadores e palmiteiros que burlam a vigilância. Como jornalistas, tivemos um grande privilégio. Não existe um estudo geográfico que aponte a principal nascente do rio. Guiados por Seu Nenê, mateiro experiente, entramos na trilha íngreme para visitar duas ou três nascentes, conforme o ritmo da excursão permitisse. No meio da manhã chegamos à primeira delas, onde a água saía do barranco e sumia sob as pedras, para brotar algumas dezenas de metros abaixo, formando um riacho límpido. Alcançamos a segunda nascente ao meio-dia, quase no divisor com a bacia do rio Ribeira, e a última no meio da tarde. Na vertente entre dois barrancos, a água brotava e descia num riacho já encorpado. Nesse momento, porém, surgiu uma divergência entre a tecnologia e a sabedoria do mateiro: enquanto o GPS e o mapa do IBGE indicavam que aquele seria o olho d'água da bacia do rio das Almas, Seu Nenê garantia que se tratava da nascente "das maiores águas" do Paranapanema - e insistia para que descêssemos pelo leito. Como não estávamos mesmo preparados para atravessar a noite fria na mata, deixamos para resolver a dúvida numa próxima ocasião e voltamos ao jipe em marcha rápida, em duas horas de caminhada no escuro.

Os três parques:

A fazenda Guapiara é uma pequena parte de um vasto território contínuo de 120 mil hectares de matas protegidas por lei, onde existem três parques estaduais abertos à visitação: Carlos Botelho, Intervales e Petar. Nessa grande área silvestre - descendo o rio por uns 20 km- fica outra enorme propriedade particular, a fazenda Sakamoto, de 6.700 hectares. Com três horas de caminhada nas matas da Sakamoto, pudemos conhecer um local belíssimo, onde as pedras dividem o Paranapanema em duas cascatas que terminam num remanso ladeado por um tapete de flores vermelhas. Pouco abaixo, vê-se a maior cachoeira hoje existente no rio, com cerca de 20 metros de desnível entre seu início e fim. Os caseiros, Antônio Meira e a mulher Maria Francisca, moradores mais próximos das nascentes do Paranapanema, acolheram os visitantes com uma boa prosa, café quente e mandioca cozida - que comemos avidamente. Mais alguns quilômetros abaixo e o rio deixa a mata, entrando numa região de campo natural, cuja vegetação original é o cerrado, que corresponde a uma ligeira depressão a oeste da serra do Mar. Pode-se então dividir o curso total do Paranapanema da seguinte forma: descida da serra; travessia dos campos; zigue-zague na "Cuesta de Botucatu", elevação que assinala o final da depressão; e a viagem pelo planalto, em descida suave até o rio Paraná.

Por causa da limpeza das águas, pode-se nadar em praticamente todos os 930 quilômetros do rio Paranapanema, mesmo quando o curso atravessa cidades. Não há grandes aglomerações urbanas em sua bacia nem pólos industriais. Sua vida, porém, modificou-se muito nos últimos 50 anos. Fortemente encachoeirado, o Paranapanema nunca se prestou à navegação, mas, no século 20, chamou atenção por seu potencial energético. Hoje o rio abriga dez usinas hidrelétricas, que transformaram em lagos grande parte do curso, submergindo quedas d'água famosas, como Salto Grande e Saltos do Palmital. A oeste da serra do Mar, o entorno do rio sofre os efeitos do desmatamento que atingiu todo o interior paulista e o norte do Paraná - com exceção do Parque Estadual do Morro do Diabo, no Pontal do Paranapanema, e seus 36 mil hectares virgens, último refúgio do quase extinto mico-leão-preto. No sul do parque, da torre de observação à beira do rio, pode-se apreciar as revoadas de pássaros como garças, biguás e macucos. De canoa, é fácil encontrar capivaras, jacarés do papo amarelo, quatis e bugios. O parque do Morro do Diabo é cenário de uma parceria de sucesso entre o governo paulista e os ambientalistas do Ipê (Instituto de Pesquisas Ecológicas). Além do bem-sucedido trabalho na preservação dos micos-leões-pretos, o órgão desenvolve outros projetos na área, como o de "guias ecológicos", mapeando as trilhas de onças, jaguatiricas e antas para fora do parque com colares sinalizadores.

Um pouco de história:

Mas o Paranapanema não é só natureza. Marco importante na história mais remota do Brasil, o rio era uma espécie de fronteira informal entre as Américas espanhola e portuguesa no início da colonização, e por isso abriga um rico patrimônio histórico. As matas da bacia do Alto Paranapanema escondem ruínas arqueológicas bem conservadas da exploração do ouro no início do século 18. Passados quase 300 anos, ainda podemos ver, por exemplo, paredes de pedra usadas para desviar as águas no ribeirão Velho e no rio das Conchas, os "encanados". Com essas construções, os garimpeiros secavam trechos dos rios, facilitando a retirada do ouro. Quilômetros abaixo, na margem esquerda do Paranapanema, estão ruínas de duas importantes missões de jesuítas da Coroa espanhola que, juntas, chegaram a abrigar quase 20 mil índios em 1630. As missões de Santo Inácio e Nossa Senhora do Loreto foram as principais na antiga região do Guairá, no centro, norte e oeste do atual Estado do Paraná. Arrasadas por bandeirantes em 1632, dos quais o mais notório foi Raposo Tavares, as missões foram esquecidas. Mesmo quem mora perto pouca coisa sabe das missões, que estão reduzidas a pedaços de cerâmica e telhas espalhadas pelo chão. Ao longo da bacia, quem se interessa por história pode ver muita coisa. Em Buri e Itapetininga, cruza o rio a antiga rota dos tropeiros, aberta em 1732 para trazer gado bovino, cavalos e mulas dos territórios do Sul para Minas Gerais, onde começava o ciclo do ouro. Em Campina do Monte Alegre encontram-se estações e edifícios da antiga ferrovia Sorocabana, construída há cerca de cem anos na interiorização da cafeicultura. Em Avaré e Piraju, vemos um rico patrimônio arquitetônico, fruto da riqueza do café, com a contribuição de mestres da época, como os arquitetos Ramos de Azevedo e Victor Dubugras. Já no Paraná, é a catedral de Jacarezinho que abriga uma obra-prima do modernismo brasileiro, as pinturas murais de Eugênio Sigaud. A comunhão entre a mão do homem e a natureza encontra seu ponto alto, no Paranapanema, na ponte pênsil Alves de Lima, tombada pelo Patrimônio Histórico, entre Ribeirão Claro e Chavantes. Inaugurada em 1920, com 80 metros de vão livre, foi duramente atingida pelas revoluções de 1924, 1930 e 1932, mas sempre reconstruída. Sua beleza plástica oferece mil possibilidades fotográficas, motivo pelo qual passamos várias e várias horas, em diferentes dias, em suas redondezas: sob as tábuas, no rio; no morro; em cima das árvores em volta; em sobrevôo. Outra grata surpresa que reserva o Paranapanema é sua gente simples e acolhedora, de variadas origens e trajetórias. Na parte alta da bacia, de colonização mais antiga, encontra-se o caboclo, resultante da miscigenação entre índios e brancos. De Santa Cruz do Rio Pardo para o oeste estão os descendentes dos mineiros que, no século 19, tomaram o sertão ainda virgem. Com o cultivo do café, chegaram também os imigrantes - que hoje marcam lugares como Ourinhos (japoneses), Pedrinhas Paulista (italianos) e São José das Laranjeiras (alemães). Desconhecido para muitos brasileiros, o rio Paranapanema vem sendo redescoberto, a começar por seus próprios moradores. Gente como o guarda-parque Paulo Mota e seus colegas, antigos caçadores que hoje dedicam-se a defender a fauna e a flora. Como a arquiteta Daisy de Moraes, que resgatou a beleza da estação de trem de Piraju, obra esquecida do arquiteto Ramos de Azevedo. Como Laís Ramos, 12 anos, que passou a amar o rio ao aprender a navegar de caiaque em suas águas. Ou o agricultor Irineu dos Santos, que guarda com firmeza as ruínas de Santo Inácio, à espera de que alguém venha finalmente estudá-las a sério. Todos moradores da região.

O mistério do nome:

Antigamente conhecido por "Paranapane" ou "Parana pane" pelos espanhóis, o rio também foi chamado de Pabaquario ou Paraquario. O nome atual, Paranapanema, é a junção de "paraná", que significa "rio" em tupi, e "panema", palavra que faz o papel de sufixo negativo, como "imprestável" ou "sem valor". A característica negativa à qual os indígenas se referiram? Pode ser a pouca navegabilidade, a relativa escassez de peixes ou mesmo a malária, presente nas margens. Ainda hoje os especialistas não chegaram  a conclusão definitiva.

A expedição de 1886: Quando as poucas cidades da região eram vilas, e os índios ainda eram senhores do Paranapanema, a pouco menos de 120 anos, três cientistas e 18 práticos levaram cinco meses para fazer a primeira incursão exploratória pelo rio. Chefiada pelo engenheiro Teodoro Sampaio, entre abril a agosto de 1886, a expedição foi organizada pela Comissão Geográfica e Geológica da Província de São Paulo para estudar, principalmente, as condições de navegação do rio. O relato de viagem, os mapas e o relatório final, publicados três anos depois, formam um conjunto notável de documentos - e até hoje impressionam pela exatidão. Nascido na Bahia, Teodoro Sampaio era filho de um padre e de uma escrava. Criado no Rio de Janeiro cursou faculdade e tornou-se engenheiro respeitado, um feito e tanto para a época. Ao longo da vida, Sampaio chefiou a implantação de estradas de ferro e a realização de obras de saneamento em São Paulo e Salvador”. 

Paulo Zocchi e Marcelo Maragni (percurso que gerou o maravilhoso  livro Paranapanema – da Nascente à  foz)

 

 

 

A saga do engenheiro Teodoro Sampaio

 

Responsável pela primeira expedição exploratória do rio Paranapanema, em 1886, o engenheiro Teodoro Sampaio é uma figura ímpar na elite científica do Brasil no final do século XIX. Negro, nasceu em 1855 no engenho Canabrava, no então Recôncavo de Santo Amaro, na Bahia, da relação entre a escrava Domingas da Paixão e o padre Manoel Fernandes Sampaio. Foi levado pelo pai aos 9 anos para o Rio de Janeiro, onde se formou pela Escola Politécnica em 1877. Apesar do forte preconceito racial, conseguiu integrar a Comissão Hidráulica nacional, pela qual fez estudos no porto de Santos, em 1879, e compôs em seguida a comissão de levantamentos do rio São Francisco, dirigida pelo norte-americano Milnor Roberts. Ao final, por seu excelente trabalho, foi considerado por Rudolf Wiezer, ajudante do coordenador, “o melhor engenheiro brasileiro na equipe do sr. Roberts”. Mesmo assim, acabou sendo o único a encerrar a tarefa sem obter um emprego, que só veio em 1882. Neste período inicial de sua vida profissional, voltou ao engenho para visitar a mãe e usou parte do salário para comprar a alforria de seus irmãos Martinho e Ezequiel, tendo negociado ainda a liberdade de um terceiro, Matias. Em 1886, o geólogo americano Orville Derby, nomeado para dirigir a recém-criada Comissão Geográfica e Geológica da Província de São Paulo, chama Teodoro Sampaio –com quem trabalhara no rio São Francisco– para compô-la, ao lado de outros nomes de destaque. Nos anos seguintes, Teodoro ocupará cargos de chefia na Companhia Cantareira de estradas de ferro e na Repartição de Águas e Esgotos de São Paulo. Contribuirá ainda na fundação da Escola Politécnica e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Homem de múltiplos interesses, iniciou, durante a viagem pelo Paranapanema, os estudos do tupi-guarani que levariam à publicação do livro “O Tupi na Geografia Nacional”, em 1901. De volta à Bahia, em 1904, dirigiu obras de saneamento em Salvador até se aposentar. Em 1911, recebe a medalha de prata da Academia de História Internacional da França. A saga do engenheiro Teodoro Sampaio Morre em 1937, na ilha de Paquetá (RJ), como sócio efetivo de honra do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, presidente do Instituto Histórico da Bahia e membro da Academia de Letras da Bahia. Homem de ciência, com curiosidade inesgotável e grande rigor, Teodoro Sampaio deixou obras notáveis às quais se têm hoje muito pouco acesso. Trazemos neste livro alguns trechos de seus escritos e mapas sobre o Paranapanema, pequena contribuição para um resgate necessário. COMISSÃO GEOGRÁFICA E GEOLÓGICA A expedição ao Paranapanema foi o batismo de fogo da Comissão Geográfica e Geológica, criada em 27 de março de 1886. O surgimento da Comissão está ligado à expansão da cafeicultura pelo interior paulista, que exigia conhecimento da topografia, clima, curso dos rios e qualidade dos solos, bem como prospecção para a ampliação das ferrovias. Orville Derby deixa o Museu Nacional para chefiá-la e traz cientistas cujo trabalho pioneiro plantou bases sólidas, como o botânico Alberto Loefgreen, os geólogos Luis Felipe Gonzaga de Campos e Francisco de Paula Oliveira e os engenheiros João Frederico Washington de Aguiar e o pró- prio Teodoro Sampaio. Nas décadas seguintes, a Comissão fará um levantamento dos solos paulistas, das espécies de fauna e flora, ajudará no saneamento da capital e realizará novas expedições pelos rios do Peixe, Aguapeí, Feio, Grande e Ribeira, entre outras. Sobre o Paranapanema, publica dois relatórios em 1886 e 1890 e relatos menores em 1927. Extinta em 1931, após a ascensão de Getúlio Vargas, a Comissão Geográfica e Geológica deu origem a instituições de pesquisa no Estado como o Instituto Geológico, o Museu Paulista, o Instituto Geográfico e Cartográfico, o Serviço Meteorológico, o Horto e o Instituto Florestal.

 

Fonte: The São Paulo Geographical and Geological Commission: sitting in the middle, Teodoro Sampaio

 

Rio Raranapanema - Salto Piraju

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